domingo, 5 de abril de 2026

A Guardiã de Querig

 



Manduara despertou antes dos sois espantarem as sombras das montanhas sobre o vale. Levantou rapidamente para verificar o perímetro. Não havia ninguém na penumbra. Inspecionou a construção e ela a olhou de volta. Dois buracos na única parede ainda em pé assemelhavam‑se a olhos cansados, pedindo socorro.

Sentou-se em um bloco de pedra. Por um momento, tentou lembrar. Viver séculos geralmente gera inveja nas raças mais breves, mas elas não se dão conta de um problema que acompanha a longevidade: o esquecimento da própria vida. Os acontecimentos que ocorreram em momentos muito destinos se misturam. Uns se perdem, outros são inventados. 

Manduara se lembra, ou acha que lembra, que na sua infância o vale era ocupado por prósperas plantações e a construção espalhava a sua imponência sobre a região. O que restou dessas lavouras, se de fato existiram, são alguns arbustos e arvoretas que teimam em crescer sobre as ruínas do que um dia foi uma torre. Eles fielmente provêm frutos no meio de um terreno infértil e poeirento. O sabor deles lhe parecia familiar, suas ancestrais talvez fizessem tortas com elas. 

Mesmo que a sua mente fosse um mar de dúvidas, havia uma ilha de certeza. Ela tinha um medalhão com a imagem de uma labareda e a inscrição “Querig”. A mesma marca ornava as laterais do que fora o portão da construção. Ela sabia que tinha que protegê-la, ou o que sobrou dela. Não importa se aquilo foi a residência de alguém importante, forte militar estratégico, monastério sagrado de uma ordem religiosa ou uma escola prestigiosa de magia. O determinante era o seu dever em garantir que ninguém a tomasse. 

O som do riacho a chamou. As marcas na margem testemunhavam que em outro tempo as águas já foram mais volumosas. Não fora ali pescar ou recolher água. Ajoelhou-se e mergulhou as mãos. Queria uma sensação imediata, concreta. O riacho não precisava ser lembrado para continuar existindo. Não é que ela se esquecesse de tudo. O que ocorreu nos últimos cem, talvez duzentos anos, ainda eram relativamente confiáveis, mas antes disso tudo era incerto. 

Encontrou as fundações de uma ponte destruída e sua mente voltou a emergir em tempos longínquos. Neste passado distante passaram por ali mercadores e viajantes, bardos elegantes e tropas relutantes. Entre eles passaram alguns amores. Um lhe levou o coração, outro, um par de brincos. Eram diferentes, mas se completavam. Pareciam ser um feito de muitos, como uma quimera. O monstro talvez não fosse exatamente feito deles, mas sim das relações construídas com cada um. Poderia ter seguido com eles, contudo, seu dever não permitia. Devia ali permanecer, vigiar. 

Quando voltou à construção, os sois já iniciavam o seu declínio. Manduara caminhou lentamente ao redor, como fizera incontáveis vezes, embora não pudesse afirmar quantas. Viu lobos alaranjados como aquela terra rondando a entrada Norte do vale. Seus olhos élficos estavam envelhecidos, mas conseguiam reconhecer o perigo. Veio na memória quando um Império por ali entrou e tudo destruiu. Será que foi assim? Sua mente foi tomada pela imagem dos próprios ocupantes, informados do inimigo, destruíram tudo e se esconderam em cavernas. Talvez as duas coisas tenham ocorrido em épocas distintas. Manduara fechou os olhos, tentando resgatar a verdade, mas ela se desfez e reconstrói como nuvens ao vento. Nunca esqueceu, contudo, da dor que sentiu dos ataques que sofreu nessa época. As cicatrizes deixadas na pele já se foram, mas não as da alma. A dor é uma pedra pesada no fundo do rio. 

Deu mais duas voltas na construção, garantindo-lhe a sua proteção. “Ela é importante”, murmurou, antes de seguir para a colina do poente. Lá estavam os mortos. Os mais antigos, enterrados sob montes de pequenas pedras, como se fazia naqueles tempos. Os mais recentes foram queimados em uma rocha redonda com inscrições cujos significados não lhe diziam mais nada. Manduara não se lembrava da maioria deles e tinha vergonha disso. Constrangimento este que já aparecia em alguns rituais fúnebres. “Desse eu não vou esquecer”, prometia para si mesma. Mas em vão. Por mais calorosos que tivessem sido os abraços, por mais divertidos que tivessem sido os banquetes que ocorriam na construção, nada importava. O tempo sempre arrancava os rostos dos mortos e apagava os seus nomes. Restavam‑lhe, de fato, apenas duas perdas para serem carregadas no peito.

No fim da tarde, quando as sombras se alongavam sobre a terra seca, ela decidiu fazer algo que não fazia há muito tempo. Entrou na construção. Não havia portas, apenas aberturas irregulares entre as pedras. O interior era fresco e acolhedor. Algumas raízes haviam atravessado as paredes, criando formas orgânicas. Constituíram um ninho de madeira no centro do que já foi um pátio. Ali ela deitou para chorar pelas duas vidas que ela gerou e que foram levadas pela peste. Se ainda estivessem presentes, seriam mais importantes que a construção, todavia essa não fora a vontade dos deuses. Reparou que no chão de pedra encoberto era possível ver um sulco. Não era grande, apenas um dedo de profundidade. Curiosamente era do tamanho do medalhão que a definia. 

Por muito tempo ela só o encarou, como se fosse um abismo que chama ao salto. A lua vermelha estava plena sobre o pátio, cercada de estrelas, quando Manduara finalmente retirou o medalhão e o acomodou na depressão. Pela primeira vez em muito tempo, talvez pela primeira vez, não tentou lembrar de nada. 

Teve o mais puro dos sonhos, para nunca mais acordar. A construção, sem ter de quem mais cuidar, se desfez. As pedras viraram poeira, que foi levada pelo vento e carregada pelo rio. Ninguém mais se lembraria de Querig e da sua guardiã.  

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