quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Voidfall é 4x?

 

Voidfall

Nigel Buckle, Dávid Turczi,  2023

[a pandemia não acabou, se cuide]


O império galáctico caiu e fanáticos religiosos se espalharam pelos sistemas. Nós controlaremos uma das grandes casas que estão tentando se tornar a nova força hegemônica. Precisaremos controlar setores, guerrear com os fanáticos, desenvolver a nossa tecnologia, administrar as nossas forças militares e lidar com a corrupção.


Voidfall é um euro pesado que se propõe emular um jogo 4X. Caso você ainda não saiba, jogos 4X são aqueles que uma civilização precisa eXplorar o território, eXpandir seus domínios, eXtrair recursos e eXterminar seus adversários. Eu já fui muito fã de 4X, durante a minha vida certamente gastei mais tempo jogando Civilization no computador do que assistindo aula na minha graduação. Estranhamente o Sid Meier nunca me enviou um diploma. 


O jogo tem 3 “eras”. No início de cada uma, o 1o jogador escolherá um entre dois eventos. Este tem alguns efeitos, entre os quais determinar quantas cartas serão utilizadas pelos jogadores. Na minha partida esse número variou entre 4 e 5, mas pode ser mais do que isso. Na sua vez, você precisará escolher uma carta entre as 9 disponíveis (8 na 1a era). Cada carta tem 3 ações disponíveis, a princípio você faz 2 delas, mas poderá fazer a 3ª gastando um recurso específico. Cada carta só pode ser usada uma vez por era, mas voltará a ficar disponível na era seguinte. 


São, assim, 27 ações diferentes à sua disposição. A análise combinatória delas é imensa. O peso do jogo está principalmente neste ponto. Saber escolher as ações certas, na ordem certa, para fazer a sua máquina de pontos. Alguns exemplos de efeitos são: construção de naves; movimentação de naves (o que pode gerar combate); construção de guildas nos sistemas que você controla (que funcionam como prédios produtores); ativar as certas guildas para ganhar recursos (são 5 recursos diferentes); avançar em três trilhas de desenvolvimento; ganhar novas tecnologias; melhorar tecnologia que você já tem; adquirir mais poder militar; remover uma peça de corrupção; geração de pontos de vitória por distintos critérios. Achou muito? Isso foi só um resumo. 


No final da era você ganhará pontos pelas suas cartas de agenda. Você começa com uma agenda e poderá ganhar mais ao longo da partida se fizer ações para isso. Os pontos podem vir por número de sistemas controlados, sistemas com muita população, determinadas guildas, avanços na trilha de desenvolvimento, entre outros. No final da 3a era temos o tradicional “quem tiver mais ponto vence” (e se faz muito ponto neste jogo). 



Mas vamos à polêmica, é um 4X? No meu ponto de vista, não. De fato temos o eXpandir e o eXtrair, mas paramos por aí. A eXploração é irrisória. Quando você controla um território novo você ganha uns recursos aleatórios ou instala uma guilda no sistema. Poder-se-ia tirar isso e não faria a menor falta. A eXterminação é situacional, depende da configuração de mapa que você estiver jogando. Eu fui com o que estava indicado para primeira partida com 3 jogadores e não tivemos nenhum combate entre nós. Apenas lutamos contra os “barbaros”. Mas há mapas que colocam os planetas natais mais próximos, favorecendo os conflitos. O comportamento dos jogadores também afetará neste ponto. Mas mesmo com esses poréns, me parece que de fato ir para cima e exterminar o seu oponente não acontecerá em por aqui. Creio que Voidfall menos 4x que Scythe, por exemplo.  


Aliás, o ponto fraco do jogo para mim é a falta de interação. Eu praticamente não olhei para o tabuleiro dos meus adversários. Temos apenas que disputar as agendas, mas ficam sempre 3 abertas, e as tecnologias, mas há sempre 2 cópias de cada. Isso poderia ter sido resolvido com disputas políticas ou comerciais, o que infelizmente não acontece. 



Não ser 4X é um problema? Depende do que você estiver esperando. Se você estiver indo a procura de algo que lembre o Twilight Imperium ou mesmo um Eclipse, você provavelmente vai se frustrar. Acredito que a expectativa gerada por esse bando de miniatura bonita pode se transformar em insatisfação em 2023. Mas se você gosta de Trickerion, On Mars e de outros eurões temáticos, esse jogo pode ser para você. O que eu mais gostei dele foi a profundidade estratégica. Inicialmente eu pensei que os pontos viriam principalmente das agendas e que precisaríamos ficar correndo atrás desses objetivos, mas há muito mais do que isso. Dá para ganhar muito ponto conquistando territórios, subindo nas trilhas de desenvolvimento e escolhendo as ações de pontuação. Eu gosto muito de construção de motor e disso não se pode reclamar.


A campanha no Kickstarter está sendo um sucesso absoluto. A Grok já anunciou que trará para o Brasil, você está pensando em comprar?     

 


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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Icaion - para além da presença de mesa

 Icaion (Martino Chiacchiera, Marta Ciaccasassi, 2020)

[quando for a sua vez, vá se vacinar]

Estamos em um mundo apocalíptico. Somos exploradores da Cidade. Precisaremos nos aventurar fora dos muros para recolher minérios fantásticos e relíquias. Lá fora há uma criatura gigantesca, conhecida como Colossus, além de outros perigos. 


Trata-se de um euro médio, baseado na mecânica de construção de motor por meio do território. Segue o resumão. Nele seu avatar é um aventureiro que atua no tabuleiro principal. Existem territórios e andamos pelos vértices desses territórios. Na sua fez você escolherá fazer um das seguintes ações: construir prédios nos territórios(o que fará a construção do seu motor-territorial); coletar recursos; matar criaturas invasoras; coletar um aparato na Cidade; instalar um aparato nas crateras; ou investigar o Colossus. Há competição por pontos pela matança das criaturas; pontuação distinta por aparato instalado e pela investigação do Colossus. Existe assimetria modular, você pega um herói e mais um poder assimétrico. 



Eu gostei Icaion. Adoro construção de motor e achei bem original a forma que ela foi implementada aqui. Todo o jogo está muito bem amarrada a ela. A limitação para a construção de prédios faz com que você precisa pensar bastante onde colocar os seus. Cada território não pode ter mais de um prédio do mesmo jogador nem mais de um prédio do mesmo tipo (entre 3 possíveis). Se a 4a criatura invadir o território, todos os prédios nele são destruídos. O Colossus ataca de quando em quando os exploradores em territórios adjacentes. Enfim, as consequências estão engenhosamente entrelaçadas. O ponto fraco na minha opinião são as cartas que você ganha principalmente por meio de um dos prédios. Elas têm efeitos bem variados e situacionais. Mas nada que estrague o jogo para mim. Nem adianta muito recomendar este jogo. Acho que foi exclusivo para Kickstarter, dificilmente veremos por aqui. 



Por fim, vale ressaltar a quantidade e beleza das miniaturas. O Colossus em especial é beeem grande. Confesso que tenho um preconceito com esse esbanjamento visual, mas a presença de mesa vem cada vez mais se tornando um elemento fundamental para os jogos. As editoras não tem muito como fugir disso. Você prefere um jogo bem mais barato ou bem mais vistoso?


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terça-feira, 21 de setembro de 2021

Tabannusi: Builders of Ur

 

Tabannusi: Builders of Ur

(David Spada, Daniele Tascini, 2021)

[quando for a sua vez, vá se vacinar]


Seguindo a linha de jogos com nomes difíceis começados por “T”, temos Tabannusi. Nele somos os construtores da cidade de Ur na mesopotâmia de idade do bronze. 

Tabannusi é um eurão da escola italiana. As regras são um pouco complicadas à primeira vista, mas ao longo da partida é fácil se entender com elas. O tabuleiro é dividido em cinco distritos. No início do turno você escolherá um dado no distrito onde você está. Ele determinará qual distrito você estará na próxima rodada. Depois disso você fará 2 ações que variam de distrito para distrito. Nos distritos 1 a 3 a dinâmica é similar, neles desenvolverá projetos e construirá prédios sobre esses projetos. Nesse ponto há bastante interação positiva, pois construir prédios sobre projetos alheios dá vantagens para os dois jogadores. No distrito 4 existem os barcos que funcionam como tecnologias que melhoram determinadas ações. O distrito 5 é focado na geração de pontos de vitória. Quando todos os dados de um distrito são retirados ocorre uma determinada pontuação específica desta região. Depois que cinco pontuações distritais são acionadas tem uma última rodada é a pontuação final. Nela cada distrito é pontuado novamente e revela-se uma carta de objetivo secreto que cada jogador pega no início da partida. 


Eu gostei de Tabannusi. Os jogos desta linha em geral me agradam, com a exceção do Tawantinsuyu (que não é do Daniele Tascini, mas é da mesma editora). Esse jogo é consideravelmente mais rápido que os demais, sem perder em muito a complexidade. Os primeiros turnos não foram muito agradáveis por falta de domínio das regras, tenho certeza que isso não ocorrerá em uma segunda partida. Fiquei com uma dúvida sobre algumas consequências decorrentes da interação positiva. Há momentos em que você implementa projetos esperando que outro jogador construa neles, beneficiando ambos. Contudo, não há garantia que isso ocorra. Você até poderá construir em seus próprios projetos, mas isso é consideravelmente pior. Parece-me que essa dinâmica pode não funcionar sempre. Quem se apega muito ao tema pode ficar um pouco frustrado, certamente não é o forte do jogo. Mas se você aprecia os euros italianos, você precisa experimentar Tabannusi?


DataDudu: qual o seu favorito? Tzolk'in, Teotihuacan,Tawantinsuyu,Tekhenu ou Tabannusi?



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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Formosa Tea - Resenha Rápida

Formosa Tea (Chu-Lan Kao, 2019)

Somos produtores de chá em Taiwan (ou Formosa, como queiram) no século XIX. Precisaremos cultivar, beneficiar e vender esse produto. Poderemos ter chás de qualidade, com pouca umidade e aromatizados, ou apostar na quantidade com produtos menos nobres. 

É um jogo euro médio de alocação de trabalhadores. A princípio até parece um médio pesado, mas depois da primeira rodada fica bem direto. Você poderá alocar seus trabalhadores para coletar chás nos campos, beneficiar os produtos e vender os produtos para o mercado interno ou externo. Tem um mecanismo interessante, sempre que um trabalhador for alocado em um campo todos que estiverem beneficiando o chá na mesma linha avançam no processo. Existem três tipos de chá e cada um tem uma forma distinta de tratar da umidade que há nele durante o beneficiamento. Essa parte exige um tanto de microgerenciamento no início da partida, mas depois você pega umas tecnologias que simplesmente acabam com essa preocupação. 

Eu tive uma boa partida de Formosa Tea, mas minha impressão sobre o jogo foi piorando à medida que eu fui escrevendo essa resenha. Não é um jogo ruim, mas nada de muito inovador e o no que inova eu não gostei. Acho que vale jogar para conhecer algo de fora do eixo Europa-EUA. 

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